terça-feira, 23 de outubro de 2012
"A Ópera"
"Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião e foi expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros - e acaso para reconciliar-se com o céu - compôs a partitura e, logo que acabou, foi levá-la ao Padre Eterno.
- Senhor, não desaprendi as lições recebidas - disse-lhe - Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
- Não - retorquiu o Senho - não quero ouvir nada.
- Mas, senhor...
- Nada! Nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
- Ouvi agora alguns ensaios"
- Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto para dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultam alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há alguns lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres patuscas de Windson. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem ele que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele o próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
- Esta peça - concluiu o velho tenor - durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmo, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos os escolhidos". Deus recebe o ouro, Satanás o papel.
- Tem graça....
- Graça? - bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: - Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine essa verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc. Este cálice (enchia-o novamente), este cálice é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe a mesma ópera..."
Machado de Assis em Dom Casmurro.
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
"Para machucar os corações"
"Para quem tem mais de trinta, trinta e cinco anos, este disco pode ser uma tortura. Não, não é que seja um mau disco. Eu explico. Ou tento
É que fatalmente eu/tu/ele/nós vamos lembrar. E não estou certo se essas lembranças serão boas. Ou se seriam boas, lembradas hoje, você me entende? Porque o tempo passado, filtrado pela memória e refletido no tempo presente - agora -, parece sempre melhor. E terá mesmo sido?
Apenas, quem sabe, porque não havia fadiga lá. Aquela fadiga que se insinua, persistente, entre o ruido das buzinas e das descargas abertas nos engarrafamento de trânsito, todo dia. Ou essa, de atravessar mais uma vez qualquer avenida às seis da tarde para, de repente, olhar a multidão também fatigada e perguntar: mas que cidade, afinal, é esta? E que vida? A quase amável, paciente fadiga de contemplar o grande relógio das repartições e escritórios, quase imóvel na sua lentidão, a partir das cinco e a caminho das seis da tarde. Para nos despejar, novamente, nas ruas entupidas de fumaça e desejos bandidos nas esquinas, dentro de carros apertados entre outros carros ou de ônibus apinhados- até o interior dos apartamentos, com seus fantasmas emboscados, uns mortos, outros vivos. E então o acúmulo de contas atrasadas, telefonemas ansiosos, telenovelas chatas, quem sabe algum plano, certas fantasias. Outra cidade, outro país, outro planeta, outra vida que não esta - uma memória de flores no cabelo e pés descalços, pouco antes de o ruído do despertados e de o meu/teu/dele/nosso coração serem os únicos audíveis dentro da escuridão onde afundamos na lama de nossos sonhos mortos.
Mas eu falava - tentava - de um disco. De John Lennon.
Ele foi gravado ao vivo, no Madison Square Garden, em 30 de agosto de 1972. Há quase, portanto, catorze anos. Você tinha quantos anos - quinze, vinte, vinte e cinco? E provavelmente também imaginava que, um dia, pudesse não haver mais guerras, nem países, nem ódio entre as pessoas. Um mundo novo, não é isso? Depois houve cinco tiros nas costas,e pouco antes, durante o depois, os muros das cidades pixados com frases como "flower-power is dead". E então uma invasão de cabelos muito curtos, quase raspados, roupas negras, couro justo: a ridicularização de tudo em que você acreditou durante tanto tempo - e largou faculdade, largou família, caiu em bandos pelas estradas para sonhar com essa coisa que não aconteceu: o mundo novo. O deboche das suas antigas - e perdidas - ilusões. Patrício Bisso só sobe no palco para cantar qualquer coisa como "bolsa peruana? Sandália indiana? Hippie? Mata!". Eu rio, você ri, ele ri - nós rimos todos juntos. E temos um sutil cuidado em evitar, no vocabulário, no vestuário, qualquer detalhe capaz de nos identificar como sobreviventes daquele tempo. Agora somos mais do que modernos: demi-darks. Não temos fé, nem esperança, nem caridade. Bebemos vodca pura, cheiramos umas. Nunca mais compramos uma caixinha de incenso. E a bad-trip pinta sem química.
Tudo isso dói tanto. Eu nunca mais tinha ouvido John Lennon. O tempo corre, a gente vai descobrindo jeitos de se proteger. Elis? Nem pensar: põe ai uma Paula Toller. Marc (quem lembra?) Bolan? De jeito nenhum, melhor um Boy George, cara. Let's Roller. It's only rock and roll. Só que eu nem sempre sei se gusto. Mas, por trás das defesas, esse vinco no canto esquerdo da boca continua avançando, cada vez mais fundo, cada vez mais longo. Você tenta reagir, sem dizer claramente não, pelo amor de Deus, não me dá esse disco para ouvir, eu não entendo nada de música, eu não conheço John Lennon e nunca ouvi falar em Yoko Ono. Eu não tenho tempo. Não posso parar, nem pensar, nem sentir. Nem lembrar. Eu preciso ganhar dinheiro. Tenho pressa nesse passo alucinado em direção ao buraco negro do futuro.
Mas você acaba aceitando. Agora somos profissionais. Colocamos no toca-disco, como quem não quer nada. Liga a TV, ao mesmo tempo. E, no meio dos sons que vêm também da rua e dos outros apartamentos, de repente aquela voz tão antiga e conhecida grita:
-Mother!
Aumente o volume. Ou desligue pra sempre, você me entende?"
Caio Fernando Abreu para o jornal O estado de S. Paulo , 6/4/1986
http://www.youtube.com/watch?v=85rPsIEHkyU&feature=related
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